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Como ler uma previsão de surf (guia para iniciantes)

Pierre N.Cofundador do Yosurf

Somos quatro fundadores, mais de 100 anos de surf acumulados, do País Basco a Bali, passando pela Indonésia, Califórnia e Havai.

Factos verificados em 20 de julho de 2026

Uma previsão de surf resume-se a cinco números, e a ordem por que os lês muda tudo. Começa pela direção da ondulação (entra neste spot?), depois o período em segundos (ondulação a sério ou vaga de vento?), depois a altura (é do teu tamanho?), depois o vento (offshore = limpo, onshore = desarrumado) e, por fim, a maré (a que horas o spot funciona). O vento decide quase sempre o dia. E lembra-te: a altura anunciada é uma média — as séries chegam maiores.

Altura de ondulação ou altura de onda: porquê dois números?

Na maioria dos sites convivem duas alturas, e não contam a mesma história.

  • A altura de ondulação: o que o modelo calcula ao largo, em pleno mar.
  • A altura da onda (na rebentação): o que vais mesmo encontrar à tua frente, depois de a ondulação ter encontrado o fundo e a costa.

Entre as duas está a forma do fundo e a orientação da praia. Uma ondulação de um metro ao largo pode dar 30 cm numa baía abrigada e um bom metro e meio numa praia virada a oeste — no mesmo dia, a dez quilómetros de distância.

Segunda armadilha, a que apanha todos os iniciantes: o número apresentado é uma altura dita «significativa», ou seja, a média do terço das ondas maiores. Traduzindo: o mar não tem 1 m em todo o lado, o tempo todo. Muitas ondas são mais pequenas, e as séries que chegam de poucos em poucos minutos podem atingir cerca de uma vez e meia o anunciado. Um «1 m» contém, portanto, ondas de 1,50 m — em geral mesmo no momento em que tentas passar a rebentação.

O período: o número que toda a gente salta, e que muda tudo

O período, em segundos, é o tempo que separa duas ondas a passar no mesmo sítio. É o melhor indicador da qualidade da ondulação, mais do que a altura.

  • 4 a 7 s: isto não é ondulação, é vaga levantada pelo vento ali mesmo. Mole, desarrumada, sem forma.
  • 8 a 11 s: uma ondulação correta, muitas vezes o melhor compromisso para aprender.
  • 12 a 15 s: ondulação de fundo a sério, nascida de uma tempestade distante. Organizada, em séries nítidas, poderosa.
  • 16 s e mais: uma ondulação que atravessou o oceano. Rebenta mais ao largo, mais cavada, e bate bem mais forte do que o número da altura deixa adivinhar.

Porquê? Porque uma ondulação longa viaja depressa, chega em grupos bem arrumados e transporta muito mais energia do que uma vaga de vento da mesma altura. Também «sente» o fundo mais cedo, por isso levanta-se mais longe da praia. A regra que salva sessões: 1 m a 14 s e 1 m a 6 s são dois oceanos diferentes. O primeiro é uma verdadeira onda de surf, o segundo uma máquina de lavar.

Corolário de segurança, muitas vezes ignorado: quando se está a começar, pouca altura com período muito longo não é «fácil». A onda é mais rápida, cava de repente, e as correntes de retorno são mais fortes.

Direção e vento: a dupla que faz ou desfaz o dia

Ambos se leem em graus ou em pontos cardeais e, em qualquer dos casos, o número diz de onde vem, nunca para onde vai. 270° é oeste; 315°, noroeste.

A direção da ondulação decide se a onda entra na tua praia. Cada spot tem uma janela: um cabo, uma ilha, uma ponta ou simplesmente a orientação da praia bloqueiam parte das direções. Uma praia virada a oeste delicia-se com uma ondulação de oeste–noroeste e pode ficar plana com uma ondulação de sul, por muito enorme que esteja ao largo. É a primeiríssima coisa a verificar: se a direção não entra, o resto não serve de nada.

O vento decide o estado da superfície — e é muitas vezes ele que decide o dia.

  • Offshore (de terra para o mar): alisa a água e segura a onda de pé. É o vento das fotografias bonitas. Demasiado forte, torna o take-off difícil.
  • Onshore (do mar para terra): pica, desorganiza, deixa a onda mole e cheia de marulho.
  • Side ou cross-shore (paralelo à praia): entre os dois, depende do spot.

Abaixo de 10 km/h a direção conta pouco: está praticamente liso. Verifica as rajadas e não só a média, e confere a unidade apresentada (1 nó ≈ 1,85 km/h). Por fim, pensa no ciclo das brisas: com bom tempo, o vento térmico levanta-se muitas vezes ao fim da manhã e reforça à tarde. É toda a razão de ser da sessão ao amanhecer.

A maré, e depois a ordem por que ler tudo isto

Na costa atlântica, a maré transforma um spot em poucas horas: desloca a zona onde a onda rebenta, cobre ou descobre os bancos de areia e as rochas. Muitos beach breaks funcionam a meia-maré; alguns reefs só são surfáveis com água suficiente por cima das pedras. No Mediterrâneo, a amplitude é tão pequena que se pode esquecer. Em Portugal, olha para a amplitude entre a baixa-mar e a preia-mar na tabela de marés (em França resume-se num coeficiente de 20 a 120): quanto maior, mais depressa a água sobe e desce, e mais fortes ficam as correntes.

A ordem de leitura que funciona, em quatro perguntas:

  • 1. Direção: a ondulação entra neste spot? Se não, muda de praia.
  • 2. Período e altura, em conjunto: que onda é esta, e é do meu tamanho?
  • 3. Vento: vai estar limpo ou lavado? Um onshore forte estraga um dia perfeito no papel.
  • 4. Maré: a que horas é que este spot funciona mesmo?

A boa janela é o cruzamento dos quatro — muitas vezes duas horas, não o dia inteiro. É exatamente esse cruzamento que o score por nível da Yosurf condensa num único número.

Falta a parte que nenhum modelo mostra: a corrente, a gente na água e a tua forma do dia. Em Portugal chamam-se agueiros ou correntes de retorno; nas praias das Landes, do Médoc ou da Côte d'Argent, em França, são as baïnes — covas cavadas entre bancos de areia que puxam para o largo, sobretudo à volta da baixa-mar e em marés vivas. O mecanismo é o mesmo. Se fores apanhado, nunca remes contra: desloca-te paralelamente à praia, levanta um braço e fica perto de uma zona vigiada. Junta-lhe o shore break nas praias de forte inclinação, e a regra que vale mais do que todas as outras: não entres acima do teu nível só porque a previsão está bonita.

Perguntas frequentes

Que tamanho de onda para começar?

Aponta para 0,50 m a 1 m anunciados, com período médio (8 a 11 s) e vento fraco. O ideal continua a ser a espuma — a onda já rebentada — numa praia de areia de inclinação suave e numa zona vigiada. Acima de um metro, o esforço para passar a rebentação e a força da corrente aumentam muito mais depressa do que a altura.

Como saber se o vento é offshore na minha praia?

Compara a direção de onde vem o vento com a orientação da praia. O teste mais simples faz-se no local: ficas de frente para o oceano e, se o vento te chega pelas costas, é offshore. Se te sopra na cara, é onshore. Numa praia virada a oeste, um vento de leste é, portanto, offshore.

Uma previsão a 7 dias é fiável?

Os primeiros dois a três dias são sólidos. Depois disso, lê uma tendência, não um encontro marcado. A ondulação é mais previsível do que o vento, porque já foi gerada por uma tempestade que existe, enquanto o vento local pode mudar de uma atualização para a outra. Volta a confirmar na véspera à noite e outra vez na própria manhã.

A reter

Lê sempre pela mesma ordem: direção, depois período e altura, depois vento, depois maré. A direção diz se a ondulação chega, o período diz que onda é realmente, o vento decide o dia, a maré escolhe a tua janela. E não esqueças o que os números não dizem: a altura anunciada é uma média, as séries são maiores, as correntes não aparecem em lado nenhum — um score calibrado para o teu nível não faz mais do que condensar estas quatro leituras por ti.

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Comparação editada pela equipa Yosurf. Cada facto citado (preços, funções) é verificável nas ferramentas mencionadas.

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