Guia do spot · Maroc
Surfar Anchor Point Taghazout: a direita mítica de Marrocos
300 metros de direita perfeita, sol o ano inteiro e o cheiro a tajine a subir do parque de estacionamento.
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Porque é que Anchor é O sonho marroquino
Imagina uma direita que se levanta sobre um planalto rochoso, faz uma curva, desenrola, desenrola ainda mais, e te cospe 300 metros à frente com as coxas a arder e um sorriso de parvo. Isso é Anchor Point. A direita mais famosa de Marrocos, a que pôs Taghazout no mapa mundial do surf. Quando o swell de NW entra bem, a onda encadeia secção atrás de secção: um take-off um bocado nervoso na rocha de cima, uma parede rápida para carvar, às vezes uma secção cava que te tuba se estiveres no sítio certo, e um ombro comprido para acabar em beleza.
O que é de loucos é o comprimento. Nos bons dias de inverno podes remar a sessão toda e apanhar mal três ondas, porque uma só onda te ocupa um minuto inteiro. Não é uma onda, é uma viagem.
E o nome? Não é por acaso. Com maré muito baixa ainda se veem velhas âncoras encravadas nas rochas da ponta. Os surfistas ficaram com o nome inglês «Anchor Point», mas os pescadores locais chamavam-lhe Almadraba, do nome de uma técnica antiga de armadilhar o atum-rabilho com muros de redes. O muro em ruínas a uns cem metros na direção da aldeia? São os restos de uma antiga fábrica de atum. Estás literalmente a surfar por cima de uma velha armadilha de peixes.
Quando a ponta acorda: swell, vento, maré
Anchor precisa de tamanho para funcionar a sério. Abaixo de 1,5 m de swell a ponta fica mole e tu aborreces-te. O sweet spot é um swell de NW a W de período longo entre 1,5 e 3 m: aí cada secção acende e o point break mostra todo o seu potencial. Nos dias grandes (3 m e mais, período longo) a coisa fica séria, manda barrel e é só para braços fortes.
O vento, como em toda esta costa, é assunto da manhã. Os ventos de este a nordeste são offshore e penteiam a onda como um espelho: levanta-te cedo, não se discute. A meio do dia costuma entrar a brisa térmica de oeste/noroeste e pica toda a superfície. Dawn patrol ou nada.
Quanto à maré, aponta para a meia-maré até à preia-mar a encher. Com maré demasiado baixa o planalto rochoso do take-off fica perigosamente perto da superfície e algumas secções fecham. A janela ajusta-se bem entre outubro e abril, com o grosso da época de novembro a fevereiro, quando as depressões do Atlântico Norte cospem os swells que fazem a felicidade desta costa.
Quando não funciona (e onde ir em vez disso)
Sejamos honestos: Anchor passa boa parte do ano a dormir. No verão os swells são pequenos e a ponta fica flat ou anedótica. Fora de época, ou nos dias de pouco swell de inverno, não esperes milagres, não se vai levantar.
O outro assassino de sessões é o vento onshore da tarde. Se chegas às 14h com a brisa de oeste a despentear-te, acabou, a parede está toda picada. E depois há a malta: assim que Anchor dá, o line-up enche-se de gente do mundo inteiro, o ambiente pode aquecer no pico e as prioridades negoceiam-se a sério.
A boa notícia é que Taghazout está rodeada de planos B. Demasiado pequeno ou demasiada gente? Desce até Panorama ou Hash Point, mesmo ao lado, mais acessíveis. Procuras outra direita de ponta sem a multidão? Killer Point um bocado mais a norte aguenta bem o swell grande. Para principiantes ou dias sem ondas, Crocro / Croco Beach e os beach breaks de Aourir-Tamraght salvam-te o dia. E para a sessão de lenda quando tudo se alinha, vai até Imsouane e a sua baía: uma das ondas mais longas do país.
Nível necessário e segurança: não nos enganemos
Anchor Point não é um spot de aprendizagem. O take-off faz-se sobre um planalto rochoso, a entrada e a saída negoceiam-se pelas pedras, e quando está grande a corrente ao longo da ponta puxa com força. Nível realista: bom intermédio a avançado. Tens de estar à vontade para rider uma direita rápida, gerir a tua prioridade num line-up carregado e saber ler as secções.
Os riscos concretos: as rochas (ouriços incluídos, leva botinhas nas marés baixas), a corrente que te arrasta e a densidade do pico nos bons dias, onde uma colisão acontece depressa. Marca a entrada e a saída antes de te meteres na água, vê por onde passam os locais, e não hesites em esperar uma acalmia entre as séries para entrar.
O verdadeiro conselho de local: na primeira sessão, observa vinte minutos do parque de estacionamento. Conta as séries, marca o pico, vê onde fecha. Anchor recompensa a paciência e castiga a arrogância. E mantém a humildade: não vai ser a tua onda no primeiro dia, vai ser a que aprendes a merecer.
Acesso, estacionamento e a vibe do sítio
O acesso é de uma simplicidade desconcertante: Anchor fica mesmo a norte da aldeia de Taghazout, na estrada costeira. Estacionas no alto da falésia à beira da estrada, vês toda a ponta a desenrolar debaixo dos teus olhos, e desces a pé pelo trilho até às rochas. É um dos raros spots de classe mundial onde verificas as condições do carro, café na mão.
Taghazout é o ADN do road-trip de surf. Uma antiga aldeia de pescadores tornada quartel-general mundial do stoke, descoberta logo nos anos 60-70 por surfistas australianos e californianos que seguiam a hippie trail em carrinha. Hoje são ruelas azuis e brancas, esplanadas que cheiram a café, surf shops, surf camps e gatos por todo o lado. Descontraído, acolhedor, barato.
Encher a barriga é fácil: tajine de peixe grelhado apanhado nessa mesma manhã, sumo de laranja espremido em cada esquina, e o famoso msemen ao pequeno-almoço. Prova o óleo de árgan, local e prensado mesmo ao lado. E se metes estrada para o interior, abre o olho para as argâneiras: vais ver cabras empoleiradas nos ramos a mordiscar os frutos. Não, não é montagem. É um dos espetáculos mais improváveis de Marrocos, e está mesmo ao lado do teu spot.
Perguntas frequentes
Que nível é preciso para surfar Anchor Point?+
Anchor Point pede um bom nível intermédio a avançado. O take-off e a entrada fazem-se sobre um planalto rochoso, a corrente puxa com força nos dias grandes e o line-up está muitas vezes carregado. Tens de estar à vontade numa direita rápida e saber gerir a tua prioridade. Não é um spot para começar: os verdadeiros principiantes vão antes para os beach breaks de Aourir-Tamraght ou para Crocro.
Qual é a melhor época para surfar Anchor Point em Taghazout?+
A época vai de outubro a abril, com o pico entre novembro e fevereiro. É quando as depressões do Atlântico Norte mandam os swells de NW de período longo que acordam a ponta. No verão a onda fica quase sempre flat ou pequena, não é a altura. Aponta ao outono e ao inverno para dias de lenda.
Que swell e que maré para que Anchor Point funcione?+
É preciso um swell de NW a W de período longo, idealmente entre 1,5 e 3 m. Abaixo disso, a ponta fica mole. Quanto à maré, a janela vai da meia-maré à preia-mar a encher: com maré demasiado baixa o planalto rochoso aflora e algumas secções fecham. E surfa de manhã, quando o vento de este é offshore.
Anchor Point é perigoso?+
Há riscos reais a conhecer: take-off e saídas sobre as rochas, ouriços, corrente que te arrasta ao longo da ponta quando está grande, e um pico muito carregado nos bons dias, propício a colisões. Marca a entrada e a saída antes de te meteres na água, leva botinhas com maré baixa, e observa os locais. Com prudência e o nível certo, mantém-se gerível.
De onde vem o nome Anchor Point?+
Com maré muito baixa ainda se veem velhas âncoras encravadas nas rochas da ponta, daí o nome inglês que os surfistas conservaram. Os locais chamavam-lhe Almadraba, do nome de uma técnica antiga de armadilhar o atum-rabilho. O muro em ruínas a uns cem metros na direção da aldeia é o que resta de uma antiga fábrica de atum.
O que fazer se Anchor Point não funcionar?+
Sem pânico, Taghazout está cheia de planos B. Demasiado pequeno ou demasiada gente: Panorama e Hash Point mesmo ao lado. Killer Point a norte aguenta o swell grande. Para dias sem ondas ou principiantes, Crocro e os beach breaks de Aourir-Tamraght. E para a sessão de lenda quando tudo se alinha, vai até Imsouane e a sua baía, uma das ondas mais longas de Marrocos.