Guia do spot · Maroc
Surfar Essaouira: a baía ventosa de Mogador
Surf ao nascer do dia, kite à tarde: em Essaouira o vento nunca dorme.
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Mogador bem desenhada: porque a baía é única
Imagina uma meia-lua de areia de vários quilómetros, abrigada por uma medina branca e azul classificada como Património da UNESCO, e duas ilhas mesmo à frente que partem a ondulação por ti. É isto a baía de Essaouira: um beach break super acolhedor, com uma água muitas vezes menos bruta do que noutros pontos da costa marroquina porque as ilhas Purpurárias (as ilhas de Mogador) filtram e suavizam o swell antes de ele chegar à praia. Resultado: ondas manobráveis, quase nem uma pedra na baía, corrente razoável. O spot de sonho para acertares os teus primeiros take-offs ou deslizar tranquilo de longboard.
Agora o dado que mata, e é verdade: nessas ilhas mesmo à frente, os romanos e os fenícios vinham pescar um pequeno caracol do mar, o múrex, para extrair a famosa púrpura imperial, aquele violeta caríssimo que tingia as togas dos imperadores. Encontraram-se oficinas de tinturaria antigas nos ilhéus. Estás a surfar literalmente em frente a uma fábrica de púrpura com dois mil anos. Nada mau para aquecer o line-up entre série e série.
Junta-lhe o vento. Essaouira é A cidade do vento de Marrocos, apelidada de cidade dos alísios. Essa brisa quase permanente faz a felicidade dos kiters e windsurfistas à tarde, e oferece aos surfistas um presente de manhã: um offshore limpinho quando toda a gente ainda dorme.
As boas condições: levanta-te cedo, o vento faz o resto
A regra de ouro em Essaouira cabe numa frase: o surf é de manhã. O alísio de nordeste levanta-se ao longo do dia e bate forte (muitas vezes 20 a 35 nós no verão), por isso queres estar na água ao nascer do dia, quando esse vento sopra offshore e alisa as ondas como um espelho. Passado o meio-dia, o mar fica picado e o spot vira em modo kite/windsurf.
Quanto à ondulação, a baía funciona melhor com um swell de oeste a noroeste, período médio, na faixa dos 0,8 a 2 metros. Como as ilhas raspam a energia, nem contes com bombas aqui: é um spot suave, generoso em ondas mas raramente violento. Aponta para a meia-maré a encher na grande praia em frente à cidade para as melhores secções.
A estação que muda tudo: para surf puro, é o inverno (de novembro a março) que traz os swells atlânticos mais consistentes e as águas mais organizadas de manhã. De abril a outubro manda o vento, é a época alta do kite e do windsurf, e o surf resume-se muitas vezes a uma janela matinal antes de os alísios tomarem conta. Fato de neoprene recomendado todo o ano: a água é francamente fresca para ser África, culpa da corrente das Canárias.
Quando não funciona: ruma a sul ou a norte
Sejamos honestos: a baía de Essaouira tem um defeito. Quando o vento já está de pé logo de manhã, ou quando o swell é pequeno demais e filtrado demais pelas ilhas, fica mole e batido. Aí não forces, mete-te à estrada.
Rumo a sul, a uns vinte quilómetros: Sidi Kaouki. Praia muito mais exposta, ondas que desenrolam sobre a areia, ambiente de aldeia boémia com o seu marabuto plantado na duna. É mais consistente e mais divertido do que a baía quando o swell entra, e ao mesmo tempo gerível para um nível intermédio. Spot perfeito para esticar a sessão.
Rumo a norte, a cerca de 25 km: Moulay Bouzerktoun. Mas atenção, isto não é para bronzear. É um reef de rocha, o reino dos windsurfistas e dos surfistas calejados, com um vento batizado localmente de Charki que pode subir até força 7. Ondas potentes, fundo de pedras, condições técnicas. Reserva-o para quem sabe ler um reef. Se estás a começar, fica na baía ou instala-te em Kaouki.
Nível necessário e segurança: o spot honesto para aprender
Boa notícia: a baía de Essaouira é um dos spots mais tranquilizadores para começar em Marrocos. Fundo de areia, poucas rochas, corrente moderada, ondas suaves logo de manhã, e uma dezena de escolas na praia que alugam material e dão o brief aos principiantes. Se vais acertar os teus primeiros take-offs, é aqui.
Mas nunca subestimes o vento. O alísio é o verdadeiro chefe da zona. Na água à tarde há gente a fazer kite e windsurf a toda a velocidade, por isso partilha o plano de água com cabeça e fica no teu lugar. E se Moulay te tentar, muda de software: reef, pedras, vento forte, já não é nada o mesmo registo, e o socorro fica longe.
A água fria é a armadilha discreta. Estamos em África, o sol bate, e mesmo assim a corrente mantém o oceano mesmo fresco: fato indispensável, capuz e botas bem-vindos no inverno. E protetor solar à farta também, que o vento faz-te esquecer que estás a cozer.
Acesso, vibe e dica local: medina, gaivotas e chá de menta
Chegas vindo de Marraquexe, a cerca de 2h30 de estrada a atravessar os campos de argão (sim, aqueles onde as cabras trepam mesmo às árvores, não é montagem). Há também um pequeno aeroporto no local. Na praia da baía estacionas fácil, as escolas e os alugueres estão alinhados ao pé da medina, por isso zero stress para arranjar uma prancha.
A vibe é todo o sal de Essaouira: uma medina amuralhada azul e branca fustigada pelos ventos, muralhas portuguesas onde as ondas se esmagam, nuvens de gaivotas, madeira de tuia trabalhada por todos os cantos, e uma cena musical enorme (o festival Gnaoua daqui é lendário). Cidade cool, artística, descontraída, hippie nas bordas. Depois da sessão, o reflexo local: o porto, onde escolhes o teu peixe fresco diretamente na banca e to grelham ali mesmo. Sardinhas, dourada, lulas, limão, preços simpáticos, pés no sal.
Última anedota que arrasa: em 1949, Orson Welles plantou a câmara nestas muralhas para filmar o seu Otelo. O filme acabou por arrebatar a Palma de Ouro em Cannes em 1952, apresentado sob a bandeira marroquina. A cidadela onde Calimmac enfrenta o mar é esse mesmo muro de pedra à frente do qual vais surfar. E se te contarem que Jimi Hendrix escreveu Castles Made of Sand em frente às ruínas da zona, sorri: a canção já existia dois anos antes de ele pôr o pé em Marrocos. Bonita lenda, mas a areia continua a esfarelar-se na mesma.
Perguntas frequentes
Quando surfar Essaouira?+
Para o surf, aponta para o inverno, de novembro a março: é a estação dos swells atlânticos mais consistentes. E todos os dias, levanta-te cedo: a janela da manhã é a melhor porque o alísio ainda está fraco e offshore. À tarde o vento sobe e o spot vira em modo kite e windsurf.
Essaouira é mais de surf ou de kitesurf?+
As duas coisas, mas em momentos diferentes. De manhã cedo, com pouco vento, é surf. À tarde, quando o alísio de nordeste bate os seus 20 a 35 nós no verão, é o paraíso do kite e do windsurf. Aliás, é por isso que Essaouira é apelidada de cidade dos alísios.
Essaouira é adequada para principiantes?+
Sim, é um dos spots mais tranquilizadores de Marrocos para aprender. A grande baía tem fundo de areia, poucas rochas, corrente moderada e ondas suaves de manhã, tudo filtrado pelas ilhas em frente. Uma dezena de escolas na praia alugam material e dão aulas.
Onde surfar à volta de Essaouira quando a baía não funciona?+
Duas opções. A sul, Sidi Kaouki (cerca de 20 km): praia mais exposta, ondas que desenrolam sobre a areia, boa para intermédios. A norte, Moulay Bouzerktoun (cerca de 25 km): reef de rocha, vento forte, ondas potentes, reservado a surfistas e windsurfistas avançados.
É preciso fato de neoprene para surfar em Essaouira?+
Sim, o ano todo. Apesar do sol marroquino, a corrente das Canárias mantém a água mesmo fresca. Um fato é indispensável, com capuz e botas bem-vindos no inverno. Não te esqueças do protetor solar: o vento permanente faz-te esquecer que estás a apanhar um escaldão.
Como ir a Essaouira para surfar?+
O mais simples é vir de Marraquexe, a cerca de 2h30 de estrada a atravessar as florestas de argão. Essaouira tem também um pequeno aeroporto. No local, a praia da baía fica mesmo ao pé da medina, com estacionamento fácil e todos os alugueres alinhados à beira da areia.