Guia do spot · Outre-Mer
Surfar Saint-Leu: a esquerda mítica da Reunião
A esquerda que desenrola 300 metros por cima do coral, de frente para o vulcão.
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Uma esquerda que desenrola 300 metros
Esquece tudo o que sabes. A esquerda de Saint-Leu é uma das mais longas e perfeitas do oceano Índico, ponto final. Uma verdadeira máquina de recife que se enrola ao longo da queda de coral por 200 a 300 metros quando a ondulação se alinha, com paredes abertas que não acabam e secções que fecham só o suficiente para te pôr debaixo do lábio. Rápida, cavada, hipnótica. Remas, dropas, e a onda faz o resto: arrasta-te ao longo do recife como uma passadeira rolante, e dás por ti a bombar só para acompanhar o ritmo.
O spot não é segredo nenhum. Em 1995, Saint-Leu recebeu o campeonato do mundo de longboard Oxbow, e mais tarde a Rip Curl pôs aqui uma etapa do seu Search. Craques como o Rob Machado ou o Occy declararam a sua paixão por esta ilha. Quando uma parede desenrola mesmo em frente ao Piton des Neiges, um pico com mais de 3000 metros que te vê remar lá do interior, percebes logo porque é que este pedaço de recife está gravado na lenda do surf mundial.
A receita que faz o recife desenrolar
Saint-Leu funciona à base de ondulação de sudoeste de período longo, aqueles comboios nascidos nas tempestades dos Quarenta Rugidores, lá bem ao sul. Entre 1 e 2,5 metros no recife é o ponto ideal: força suficiente para as secções encadearem, mas não tanta que fique impossível de fazer. A época-rainha é o inverno austral, grosso modo de abril a setembro, com o grosso da ação em pleno coração do inverno, quando o sul cospe ondulação atrás de ondulação.
Do lado do vento, estás com sorte: os alísios sopram de este a sudeste e penteiam a onda no sentido certo, offshore, sobretudo de manhã antes de a brisa térmica se levantar. Põe-te a pé cedo, é esse o acordo. E a maré, presta atenção: surfa-se Saint-Leu de meia-maré a maré cheia. Na maré vazia, a laje de coral sobe e a onda transforma-se numa armadilha para a pele. Confere a maré antes de te atirares à água, aqui isso não se negoceia.
Quando o sul adormece, para onde ir
Sem ondulação de sudoeste, Saint-Leu deita-se. Pequena demais, deixa de desenrolar, a laje aflora e passas a sessão a desviar de cabeças de coral por nada. O mesmo quando a ondulação vira demasiado a oeste ou o vento muda para onshore a meio do dia: a magia evapora-se e o recife perde toda a sua liga.
Nesse caso, mexes-te. A costa oeste, a chamada sotavento, guarda algumas opções consoante o ângulo da ondulação e a maré. Mas sê lúcido: desde a crise dos tubarões, o leque de spots autorizados e vigiados encolheu drasticamente, e Saint-Leu continua a ser a referência, muitas vezes o único realmente surfável em segurança. Informa-te nessa mesma manhã com os locais ou com a escola em vez de saíres às cegas. Má notícia para o surf, boa notícia para o resto: quando o oceano dorme, o interior espera por ti, do circo de Cilaos às cascatas, mais o mergulho de snorkel na lagoa de l'Ermitage logo a norte.
O coral, os vigias e a verdadeira história dos tubarões
Digamos isto às claras: Saint-Leu não é spot para começar. O take-off é técnico, a onda é rápida, e surfas por cima de uma laje de coral vivo que não perdoa a queda, sobretudo na maré vazia. Nível avançado no mínimo, à vontade nas secções rápidas e cavadas, lycra antiabrasão e botas recomendadas. E o line-up respeita-se: aqui a prioridade não é uma sugestão, os locais estão atentos.
A outra história é a do tubarão. Entre 2011 e 2019, a Reunião atravessou aquilo a que se chama a crise dos tubarões: uma série de ataques que levou à proibição do surf em quase todas as praias da ilha a partir de 2013. Saint-Leu tornou-se o quartel-general da resposta. Hoje é um dos raros spots onde se pode surfar legalmente, vigiado por vigias na água e motas de água que patrulham o recife durante as sessões e as competições. Nunca te metes na água sozinho, a qualquer hora: surfas nas janelas vigiadas, ponto final. Respeita o dispositivo, ele existe por uma razão.
Acesso, estacionamento e a vibe da ilha
O grande conforto de Saint-Leu é que consegues olhar para a onda da beira-mar antes mesmo de vestir o fato. O spot vê-se e alcança-se facilmente a partir da marginal, o que faz dele um sítio perfeito para ler as condições, marcar as séries e escolher o teu momento. O reverso da medalha: quando funciona, a malta está toda lá. É o spot que continua aberto, por isso o line-up enche-se depressa. Paciência, um sorriso, e lês o pico antes de te posicionares.
A vila tem uma alma crioula a sério, calma e acolhedora, com as suas casas coloridas e o seu mercado. No prato, atira-te a um cari poulet ou a um rougail saucisse com os pés na areia, regado com um café Bourbon pointu, aquele grão mítico cultivado na ilha. E a pérola que tens mesmo de ver, ali ao lado: Kélonia, o observatório das tartarugas marinhas. O melhor é que este santuário nasceu sobre as ruínas de uma antiga quinta que explorava... a carapaça das tartarugas. O sítio que as caçava tornou-se o que as salva. Difícil escrever reviravolta mais bonita, e difícil resumir melhor o espírito deste cantinho da ilha.
Perguntas frequentes
Quando surfar Saint-Leu na Reunião?+
A melhor janela vai de abril a setembro, durante o inverno austral, quando as ondulações de sudoeste de período longo chegam das tempestades do grande Sul. O pico de atividade é em pleno inverno. Surfa cedo de manhã, antes de a brisa térmica da tarde virar para onshore.
Que nível é preciso para surfar a esquerda de Saint-Leu?+
Nível avançado a expert no mínimo. É uma esquerda de recife rápida e cavada que rebenta por cima de uma laje de coral vivo, com um take-off técnico. É preciso estar à vontade nas secções rápidas e aceitar surfar em água pouco profunda. Botas e lycra antiabrasão recomendadas.
Ainda se pode surfar em Saint-Leu apesar dos tubarões?+
Sim. Depois da crise dos tubarões de 2011-2019 e da proibição de 2013, Saint-Leu tornou-se um dos raros spots onde surfar continua autorizado, graças a um dispositivo de vigias na água e motas de água que patrulham o recife. Surfa-se só nas janelas vigiadas, nunca sozinho nem fora do dispositivo.
Com que maré surfar Saint-Leu?+
De meia-maré a maré cheia. Na maré vazia, a laje de coral sobe perigosamente perto da superfície e a onda transforma-se numa verdadeira armadilha. Verifica sempre o horário das marés antes da tua sessão: é o parâmetro que faz toda a diferença aqui.
Que ondulação e que vento para Saint-Leu funcionar?+
Uma ondulação de sudoeste de período longo, idealmente entre 1 e 2,5 metros no recife, é a condição-rainha. Quanto ao vento, os alísios de este a sudeste são offshore e alisam a onda, sobretudo de manhã. Sem ondulação de sul, o spot fica flat ou cavado demais por cima do coral.
O que fazer em Saint-Leu quando não há ondas?+
Visita Kélonia, o observatório das tartarugas marinhas instalado numa antiga quinta de carapaças. Vai ver o Souffleur da Pointe au Sel, aquele géiser natural que projeta a água a vários metros, e o museu do sal ao lado. O snorkel na lagoa vizinha de l'Ermitage e um cari crioulo na vila completam o programa.