Guia do spot · Java
Surfar G-Land: a esquerda mítica da selva de Java
Uma das esquerdas de reef mais longas do planeta, acessível só por surf camp, no coração de uma selva de panteras.
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G-Land, uma das esquerdas mais longas do mundo
Alguns spots murmuram-se com respeito. G-Land é um deles. Escondida no fundo da baía de Grajagan, na ponta sudeste de Java, na selva do parque nacional de Alas Purwo, é uma das esquerdas de reef mais longas e perfeitas do planeta. A onda rola sobre mais de um quilómetro de recife, e nos melhores dias, uma só onda pode encadear as suas secções num percurso de antologia.
Na realidade, um percurso correto já faz trezentos a quatrocentos metros, o que é imenso. A esquerda rola ao longo da plataforma, secção após secção, cada uma com o seu caráter, do muro espesso e rolante ao tubo perfeito e rápido. É uma onda que recompensa a leitura, a condição física e a experiência.
Mas G-Land não tem nada de spot fácil nem acessível. Não se vai de scooter: não há nem vila, nem estrada direta, só surf camps pousados na selva. É o preço a pagar por surfar uma lenda, longe de tudo, entre os macacos e o rugido do recife.
As secções: de Kongs a Speedies
G-Land lê-se como uma descida, da secção mais suave à mais pesada. No topo do point, Kongs oferece um muro espesso e robusto, mais propício às curvas do que ao tubo: é a secção mais acessível, para intermédios sólidos. Por baixo vem Money Trees, a rainha do line-up, a esquerda cristalina world-class que cava em verdadeiros tubos sobre várias centenas de metros.
Depois o terreno torna-se sério. Launching Pads é uma secção de take-off exterior que pode armadilhar: quebra muito ao largo nas grandes ondulações e exige uma escolha de onda milimétrica. Por fim Speedies, a secção mais rápida e cavada, um tubo redondo sobre um reef temivelmente pouco profundo, que só funciona bem quando o resto começa a fechar: é aí que se produzem as lesões mais graves de G-Land. Só experts.
Para respirar, a baía guarda uma onda mais amigável: Chickens, uma esquerda mais curta e mais tolerante, de ombros abertos, ideal para as manobras mais do que para o tubo. Mas sejamos honestos: ninguém atravessa a selva oito horas para surfar Chickens. Vem-se por Money Trees e Speedies, com conhecimento de causa.
A curiosidade que surpreende: avistada de um avião e uma selva de panteras
A história de G-Land começa no ar. Em 1972, o californiano Bob Laverty avista estas esquerdas perfeitas de um avião desviado sobre Java, e a expedição que se segue faz entrar o spot na lenda. A paternidade exata é debatida, vários relatos a opor-se sobre quem a surfou primeiro; fica com o avistamento de 1972 e as primeiras sessões a seguir. Pouco depois, Mike Boyum monta ali o primeiro surf camp da Indonésia, uma cabana sobre estacas na selva, retomada em 1978 com o nome de Bobby's Camp.
A onda entra na história da competição com o Quiksilver Pro G-Land, três edições míticas de 1995 a 1997, ganhas em particular por um Kelly Slater no auge. Ver a elite mundial enfrentar este reef de selva marcou toda uma geração.
Porque o cenário é selva a sério. Alas Purwo, « a primeira floresta », alberga a pantera de Java, macacos, serpentes, pavões, e uma espessa mitologia javanesa. Os tigres, muitas vezes evocados à volta dos camps, pertencem hoje à lenda (o tigre de Java está extinto), mas o leopardo é bem real. Não se surfa G-Land, faz-se ali uma expedição.
Condições e época: o prime de julho-agosto
G-Land quer ondulação de sudoeste de longo período, nascida das tempestades do oceano Austral e focalizada por um canhão oceânico ao largo: é o que torna a onda tão potente e consistente em época. Funciona de pequeno a muito grande, e quanto mais cresce, mais se ativam as secções exteriores como Launching Pads e Speedies.
O vento ideal é um offshore de este a sudeste, os alísios da época seca, melhores a meio da manhã. Quanto à maré, atenção a uma ideia feita: aqui privilegia-se a maré alta, não a meia. Money Trees surfa-se através das marés mas prefere a água alta (mais segurança no reef), e Speedies exige a maré mais alta possível. Na maré baixa, o coral e os ouriços ficam a descoberto.
A época é a época seca, grosso modo de abril a outubro, com um coração em junho-setembro quando as ondulações de sudoeste estão no máximo: julho-agosto caem em cheio. Fora de época, é mais pequeno e inconsistente. Para surfar G-Land em plena potência, é o inverno austral, sem hesitar.
Nível, reef e selva a sério: segurança
G-Land não é uma onda para progredir: é um terreno de avançados e experts. O reef é coralino, cortante e pouco profundo, com colónias de ouriços, sobretudo na maré baixa: uns botins são indispensáveis, e um kit de primeiros socorros também. Os percursos são longos e físicos, as secções rápidas, e instalam-se correntes sérias com grande ondulação.
Mas o verdadeiro fator a integrar é o isolamento. G-Land está num parque nacional, sem vila, com estruturas médicas muito limitadas: uma lesão séria é uma evacuação longa. Não se surfa sozinho, não se sobrestima, e leva-se com que tratar-se. A zona é ainda de risco de malária: prevê uma profilaxia, repelente, e com que cobrir-te à noite.
Quanto à selva, tem em mente que és um convidado: macacos curiosos, serpentes possíveis, leopardo de Java bem real embora muito discreto. Nada disto te deve assustar se vieres preparado e acompanhado por um camp sério. É o preço de uma das mais belas esquerdas do mundo, e vale bem a viagem para quem tem o nível.
Acesso: o surf camp, único modo de ir
Só existe uma forma de ir a G-Land: o surf camp. Sem vila, sem walk-in, só camps pousados na selva de Alas Purwo, que gerem tudo de A a Z. O mais comum é o barco rápido desde o sul de Bali, cerca de duas horas de travessia, ida e volta incluída nas fórmulas. A alternativa é o overland pelo leste de Java, via o ferry de Gilimanuk para Banyuwangi e depois a estrada até Grajagan, muitas vezes na véspera do check-in.
Tudo se reserva em package tudo incluído: transfer de barco, alojamento, três refeições por dia, bebidas, taxas. Conta grosso modo de quinhentos a setecentos dólares por três a quatro noites em fórmula acessível, mais por conforto, em camps históricos como Bobby's, Joyo's ou Jack's.
A vantagem deste sistema é a multidão limitada: o número de surfistas na água depende das camas disponíveis, não de um estacionamento. Partilhas o line-up com umas dezenas de viajantes vindos pelo mesmo, num ambiente de camp selva que faz parte integrante da experiência. G-Land não se visita num dia: vive-se, uns dias, cortado do mundo.
Perguntas frequentes
G-Land é adequado para iniciantes?+
Não. G-Land é uma esquerda de reef longa, rápida e potente, sobre coral pouco profundo: é um terreno de avançados e experts. Só secções como Kongs ou Chickens toleram um bom intermédio nos dias medidos, mas ninguém atravessa a selva para isso. É preciso um nível sólido e experiência de reef antes de considerar G-Land.
Qual é a melhor época para surfar G-Land?+
A época seca, grosso modo de abril a outubro, com um coração em junho-setembro: julho-agosto caem em cheio, quando as ondulações de sudoeste do hemisfério sul são as maiores e mais regulares, com alísios offshore. Fora de época, é mais pequeno e inconsistente.
Como chegar a G-Land?+
Unicamente via um surf camp: não há nem vila nem acesso livre, só camps na selva de Alas Purwo. O mais comum é o barco rápido desde o sul de Bali (cerca de duas horas), ida e volta incluída nas fórmulas tudo incluído. A alternativa é o overland pelo leste de Java. Reserva-se um package de umas noites.
Quais são os perigos de G-Land?+
Um reef coralino cortante e pouco profundo (botins indispensáveis), ouriços, correntes fortes com grande ondulação, e sobretudo o isolamento: parque nacional sem vila, cuidados limitados, evacuação longa. A zona é ainda de risco de malária (profilaxia e repelente aconselhados). Não se surfa sozinho e leva-se um kit de primeiros socorros.
Com que maré se surfa G-Land?+
Antes a maré alta, ao contrário de muitos reefs. Money Trees, a secção rainha, surfa-se através das marés mas prefere a água alta para mais segurança no coral, e Speedies exige a maré mais alta possível. Na maré baixa, o reef e os ouriços ficam a descoberto: a evitar.
Porque é que G-Land é tão mítico?+
Porque é uma das esquerdas de reef mais longas e perfeitas do mundo, avistada de um avião em 1972 e sede do primeiro surf camp da Indonésia. O Quiksilver Pro correu-se ali de 1995 a 1997 perante a elite mundial. Junta um cenário de selva selvagem de panteras, um acesso só por barco e camp, e obténs uma verdadeira lenda do surf.
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